ANOXIA/HIPOXIA PERINATAL/NEONATAL VERSUS AUTISMO Por Lou de Olivier - 17 Jan 2008
Tendo eu, há muitos anos, iniciado minhas pesquisas e luta para divulgar a anoxia e suas complicações, freqüentemente, deparo-me com pessoas leigas ou mesmo da área questionando minhas teorias e publicações. Em vista disso, fiz este artigo totalmente técnico, porém, perfeitamente claro para que qualquer leitor consiga assimilar. Friso bem que minha principal fonte é minha pesquisa de campo e no atendimento aos meus próprios pacientes, mas como comprovo a seguir, não estou sozinha em minhas teorias e é bom que os profissionais acordem para o novo que não é tão novo assim e que merece atenção e, acima de tudo, respeito.
Falarei agora das comprovações em pesquisas desde 1971 até os dias de hoje, com os temas anoxia/hipoxia perinatal/neonatal e outras ocorrências durante ou logo após o parto como possíveis causas do autismo.
Lendo-se o manual de psiquiatria infantil, de Ajuriaguerra, na pagina 701, encontra-se a descrição de autismo publicada por B.A. Ruttemberg (1971) que diz que o autismo infantil é uma síndrome clínica, com alguns sintomas de base e uma variedade infinita de intensidades relativas e de variação secundárias. Ele considera fatores etiológicos intrínsecos orgânicos (constitucionais e adquiridos) e psicológicos ambientais como um continuum, com um número quase infinito de combinações possíveis, comportando, em um extremo, uma etiologia intrínseca completa e, no outro, uma etiologia completa ambiental. Ele acha útil dividir a etiologia autista em quatro grupos. Os dois primeiros corresponderiam a uma vulnerabilidade de predisposição, os dois últimos são secundários a um impacto ambiental
Na citação b desta descrição, lê-se o seguinte: Vulnerabilidade congênita, muito mais geral e variada, devida a uma lesão intra-uterina ou a um traumatismo obstétrico que tenha provocado disfunções ou distúrbios cerebrais. Ainda que estas deficiências impliquem uma predisposição ao autismo e à vulnerabilidade, seu efeito pode aparecer bem cedo ou muito mais tarde, conforme o equilíbrio entre o estresse e o meio nurturante para compensá-los
Neste mesmo manual, na pagina 695, cita-se os fatores orgânicos do autismo: apesar de algumas discordâncias, parece desprender-se desses trabalhos (L. Bender, I. Kelvin e colaboradores, 1971; M. J. McCulloch e C. Williams, 1971; M. E. Lobascher, 1970) que determinados fatores desfavoráveis da gravidez (por exemplo, a rubéola, estudada pó S. Chess em 1971), do próprio parto e mesmo dos recém-nascidos em si, são significativamente freqüentes entre as crianças autistas (L. Kelvin e colaboradores apresentam uma taxa de 46%)
Em meu livro Distúrbios de aprendizagem e de comportamento pela WAK editora, em sua terceira edição, cito nas paginas 114 e 115, a hiperoxigenação defendida por B. Rimland, M. R. Green, D. E. Suéter (1957) e W. R. Keeler. E a coloco em contraponto à anoxia perinatal.
Voltando ao manual de psiquiatria infantil, pagina 698, E. M. Ornitz e E. R. Ritvo (1968), dizem: a criança autista apresenta incapacidade para manter a constância da percepção, o que significa dizer que percepções idênticas, provindas do ambiente, não são experimentadas como sendo as mesmas a cada vez. Esta incapacidade tem por resultado, ao acaso, uma subcarga ou sobrecarga do sistema nervoso central. Esta enfermidade é, por excelência, a enfermidade do contato e da comunicação. É o exemplo mais significativo da relação neurológica que existe entre afetividade, contato corporal e comunicação. Esta função bloqueada no portador de autismo, não é uma anomalia do córtex, como ocorre no caso de uma criança deficiente mental. É uma típica disfunção das estruturas límbico hipotalamicas, que são as fontes biológicas das emoções.
Franscisco B. Assumpção Professor Docente-Livre do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e Diretor do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, cita que As causas do autismo são desconhecidas mas diversas doenças neurológicas e/ou genéticas foram descritas com sintomas do autismo. Problemas cromossômicos, gênicos, metabólicos e mesmo doenças transmitidas/adquiridas durante a gestação, durante ou após o parto, podem estar associados diretamente ao autismo. Entre 75 a 80% das crianças autistas apresentam algum grau de retardo mental, que pode estar relacionado aos mais diversos fatores biológicos. Portanto, a evidência de que o autismo tem suas causas em fatores biológicos é indiscutível, fazendo-nos reconsiderar a idéia inicial de ligarmos o quadro de autismo a alterações nas primeiras relações mãe-filho
E cita como doenças relacionadas ao autismo, entre muitas outras, Infecções pré-natais - rubéola congênita, sífilis congênita, toxoplasmose, citomegaloviroses; Hipóxia neo-natal (deficiência de oxigênio no cérebro durante o parto); Infecções pós-natais - herpes simplex Schwartzman, J. S.; Assumpção Jr. F.B. - Autismo Infantil. Mennon Eds.; São Paulo, 1995. Assumpção Jr. F.B. - Transtornos Invasivos do Desenvolvimento Infantil. Lemos Ed., São Paulo; 1997.
OBS: Esta mesma descrição é citada em trabalhos de pesquisas sobre esclerose tuberosa, como neste de autoria de Igor Corbisier De Rozgonyi-Roessler: ANOMALIAS CROMOSSÔMICAS DOENÇA: ESCLEROSE TUBEROSA
Trancrição de reportagem de Angeles Lopez (elmundo.es) de 04/04/2007, sobre publicação na revista Archives os pediatrics & Adolescent Medicine, em espanhol: En un número monográfico sobre autismo, la revista Archives os pediatrics & Adolescent Medicine publica varios estudios sobre los factores de riesgo relacionados con el autismo. La deprivación de oxígeno durante el parto parece influir a su vez en el desarrollo del autismo. Sin embargo, no está muy claro si está relacionado con los factores involucrados con esa hipoxia, o si el origen está en la falta de oxígeno por sí misma. Ciertas condiciones como la hipertensión maternal, la diabetes gestacional o nacer con una vuelta de cordón podrían intervenir en esa relación.
A seguir transcrevo alguns trechos publicados por: Pubmed - A service of. The library of. Medicine and the national Institutes of. health (em Inglês) 1: Pediatrics 2001 Apr;107(4):E63.
Prenatal, perinatal, and neonatal factors in autism, pervasive developmental disorder-not otherwise specified, and the general population. Juul-Dam N, Townsend J, Courchesne E. School of Medicine, University of California, San Diego, La Jolla, California, USA.
CONCLUSIONS: The results of this study support previous findings suggesting a consistent association of unfavorable events in pregnancy, delivery, and the neonatal phase and the pervasive developmental disorders. However, interpretation of the meaningfulness of these results is difficult, as the specific complications that carried the highest risk of autism and PDD-NOS represented various forms of pathologic processes with no presently apparent unifying feature. Additional studies are needed to corroborate and strengthen these associations, as well as to determine the possibility of an underlying unifying pathological process. This study's analysis of obstetric and neonatal complications in combination with the use of participants diagnosed at an early age provides some interesting concepts to consider. Perhaps future research will confirm certain pre-, peri-, and neonatal associations that could be used to gene rate a high-risk historical profile with which to use in conjunction with currently employed diagnostic tools. This may, in turn, help to determine the reliability of a diagnosis of autism in younger children, leading to earlier intervention and assistance for an improved outcome in long-term functionality and quality of life.PMID: 11335784 [PubMed - indexed for MEDLINE]: Epidemiology - 2002 Jul;13(4):417-23.
Perinatal risk factors for infantile autism.Hultman CM, Sparéu P, Cuattingius S. Department of Medical Epidemiology, Karolinska Institutet, S-17277 Stockholm, Sweden. Christina.Hultman mep.ki.se The risk of autism was associated with daily smoking in early pregnancy (OR = 1.4; CI = 1.1-1.8), maternal birth outside Europe and North America (OR = 3.0; CI = 1.7-5.2), cesarean delivery (OR = 1.6; CI = 1.1-2.3), being small for gestational age (SGA; OR = 2.1; CI = 1.1-3.9), a 5-minute Apgar score below 7 (OR = 3.2, CI = 1.2-8.2), and congenital malformations (OR = 1.8, CI = 1.1-3.1). No association was found between autism and head circumference, maternal diabetes, being a twin, or season of birth. CONCLUSIONS: Our findings suggest that intrauterine and neonatal factors related to deviant intrauterine growth or fetal distress are important in the pathogenesis of autism.
PMID: 12094096 [PubMed - indexed for MEDLINE] 1: Arch Pediatr Adolesc Med 2007 Apr;161(4):326-33. Prenatal and perinatal risk factors for autism: a review and integration of findings. Koleyzon A, Gross R, Reichenberg A.Department of Psychiatry, Mount Sinai School f Medicine, New York, NY 10029, USA.
RESULTS: Seven epidemiological studies were identified that fulfilled inclusion criteria. The parental characteristics associated with an increased risk of autism and autism spectrum disorders included advanced maternal age, advanced paternal age, and maternal place of birth outside Europe or North America. The obstetric conditions that emerged as significant fell into 2 categories: (1) birth weight and duration of gestation and (2) intrapartum hypoxia. CONCLUSIONS: Evidence to suggest that parental age and obstetric conditions are associated with an increased risk of autism and autism spectrum disorders is accumulating.
Estas são apenas algumas das comprovações cientificas relacionando a anoxia/hipoxia com o autismo. Na próxima edição de meu livro Distúrbios de aprendizagem e de comportamento publicarei este artigo na integra, inclusive relatando outras importantes pesquisas realizadas na área. E a bibliografia completa a respeito.