Bullying (na pratica, a teoria é outra...) - By Lou de Olivier

Bullying é um termo Inglês derivado de bully que significa algo como “valentão” (maltrato) e define todas as formas de agressões físicas ou psicológicas praticadas de forma continua e intencional, aparentemente, sem motivação e que, geralmente, são praticadas por um grupo de “valentões”. Também pode ser praticada por apenas um individuo mas é menos comum. Este ato de violência acaba por intimidar além de, em alguns casos, machucar a vitima que geralmente está em situação de desigualdade, sem poder reagir.

Segundo estudos, o bullying difere na pratica masculina e feminina. Entre os homens, geralmente, ele é direto e com violência e entre as mulheres indireto sendo mais psicológico isolando/ignorando a vitima: Nos dois casos a vítima teme os agressores e isso caracteriza a consumação do ato, ou seja, só existe uma vitima porque, seja qual for o motivo, não há reação. Caso haja reação, o bullying passa a ser uma briga de iguais e quem puder mais, vence.

Antes que se pense que estou “incitando à violência” quero esclarecer que meu comentário sobre “reação”se deve a muito estudo teórico e vivência prática, já que o bullying não é um problema novo, ele existe há muito tempo, apenas agora se está dando mais ênfase ao tema.

Para ilustrar o assunto, citarei um dos muitos casos que eu presenciei em meus tempos de estudos escolares iniciais (fundamental e médio).

Aos doze anos, depois de muitos anos estudando em colégio de freiras, fui parar numa escola também particular mas totalmente desajustada. O diretor, inclusive, era viciado em drogas e nunca via os absurdos que ocorriam no pátio do seu colégio.

Logo percebi que existiam duas “gangues” uma dos meninos e outra das meninas. Quem não se “adaptava” passava todos os dias por torturas físicas e psicológicas. Aliás, tinha a “hora da tortura”, justamente quando as gangues iam para o pátio e “torturavam as vitimas”. Mas havia uma regra meninas não batiam em meninos e vice-versa. Porém isso mudou no dia em que cheguei nesta escola...

Assim que me viu, o "chefe" da gangue dos meninos "apaixonou-se" por mim e passou a me perseguir, por onde eu ia, ele me seguia, dizendo da sua paixão e queria que eu dissesse que eu também o amava. Eu me recusei a dizer isso e ele, depois de muito insistir, num descuido meu, puxou o sapato do meu pé e saiu correndo e dizendo que, se eu não dissesse que o amava, nunca mais veria meu sapato.

Ele reuniu a gangue dele e começaram a jogar o meu sapato um para o outro, enquanto eu, mancando muito (era sapato de salto alto) tentava pegar meu sapato de volta. Virou um circo, com muita gente assistindo, gritando e“torcendo pelo seu favorito. Até que percebi o ridículo da situação, sai da roda, sentei-me no murinho totalmente emburrada e com um "bico" enorme.

Ao ver minha atitude, um dos adolescentes, que era "braço direito" do chefe da gangue, pegou meu sapato, saiu da roda e foi em minha direção, enquanto todos gritavam e vaiavam. Ele se aproximou e disse:

- O Nandão ta lelé, desculpa ele. A gente tem uma regra aqui, a gente não barbariza meninas. Pega teu sapato e desculpa a gente, ta legal?

Agradeci e peguei meu sapato de volta. Em seguida o chefe Nandão se aproximou e disse:

-Ainda vou te ganhar, pode crer!

Ao ouvir isso senti tanto ódio que, sem pensar, bati com o salto no rosto dele, com tanta força que começou a sangrar. E ele começou a chorar e gritar de dor. Só neste momento o diretor passou pelo pátio, totalmente drogado e dizendo:

- Vocês são um caso de policia. Parem imediatamente com esta baderna!!!

Em seguida, ele tropeçou na mureta e caiu perto da porta do banheiro...

Este foi o primeiro dia de aulas. Dá para imaginar como chegamos ao final do ano.

Eu sempre faço questão de relatar ao menos um caso que eu presenciei (ou protagonizei) porque não escrevo somente a teoria, escrevo o que conheço na pratica. E este caso ilustra bem o que quero citar.

Primeiro, o bullying é um ato praticado há muito tempo e, ao contrario do que se divulga, nem sempre os agressores são fruto de uma família desajustada, desestruturada, sem relacionamento afetivo entre seus membros e nem sempre as vitimas são pessoas inseguras, pouco sociáveis, sem poder de reação.

Isso é o que se pesquisa em teoria mas, na pratica, este (assim como muitos casos que presenciei), prova que os agressores podem vir de famílias muito estruturadas, abertas e felizes e as vitimas podem ser pessoas seguras, sociáveis que foram pegas de surpresa ou mesmo não tiveram empatia com os integrantes das “gangues” e por isso, tornam-se vitimas sem preencher os “padrões” de vitimas.

Outro fator que meu exemplo mostra é que há sim um motivo, pode até ser despercebido mas não é “aparentemente sem motivo” que se inicia uma sessão de agressão ou humilhação. No caso que citei foi uma vingança pela rejeição de uma paixão que já nasceu descabida, mas também pode ter variados motivos como necessidade de auto afirmação ou de aceitação no grupo, necessidade de “ser respeitado” por todos ou até mesmo inveja ou cobiça, o desejar ser como o outro (no caso a vitima) é e a agressão passa a ser uma forma de destruir o desejo de ser como o outro. Além destes, há outros vários motivos que podem desencadear uma sessão de tortura. É preciso analisar cada caso e perceber em cada um o real motivo mas nunca será “sem motivo aparente” como se coloca na teoria.

Outro detalhe importante, o bullying ocorre sempre quando não há nenhuma fiscalização de adultos ou responsáveis, já que pode ocorrer também entre adultos. No caso que citei, o diretor não tinha a mínima condição de vigiar nada, os funcionários também se omitiam e, por isso, os alunos transformavam o pátio num campo de batalha. Portanto, outro fator importante, deve haver mais fiscalização e profissionais especializados para conduzir os alunos durante os intervalos e mesmo durante as aulas.

Também no caso da reação, não estou sugerindo que as vitimas saiam dando sapatadas na cara dos agressores, mas deve haver algum tipo de reação para deter a sessão de tortura. A principio, o ideal é pesquisar bem varias escolas antes de se matricular (ou matricular seu filho). Após definida a escola, ao chegar para o primeiro dia de aulas, deve-se ter uma atitude cordial com todos, apresentar-se com educação e de forma amistosa e tentar fazer amizade com todos. Como isso é bem difícil, se desagradar alguém e houver atritos, tome providencias imediatamente. Ou se desculpando ou, em caso de agressões, denunciando ao responsável. Se o caso ocorrer com seu filho, procure a diretoria e exponha o acontecimento e procure resolver tudo no inicio, pois quanto mais o tempo passar mais as agressões se tornarão freqüentes e mais violentas e cada vez mais difíceis de controlar.

Isso vale também para outros ambientes e que o bullying pode acontecer. (Trabalho, condomínio/prédios residenciais, etc). Dependendo do nível de agressão, deve-se procurar uma delegacia e fazer um boletim de ocorrência e passar a evitar contatos com o agressor. E é bom saber também que a escola pode ser enquadrada no Código de Defesa do Consumidor, pois as escolas prestam serviço aos consumidores e são responsáveis por todos os acontecimentos dentro de suas dependências, isso inclui bullying. Mas deve-se lembrar que, ocorrendo fora dos portões da escola, torna-se difícil enquadrá-la, já que foge do local interno.

No caso de empresas, o assunto ainda está engatinhando e muitas renegam o existência de bullying e assumem não saber solucionar o problema. Sendo assim,até uma denuncia torna-se mais difícil mas não impossível, ao ocorrer qualquer tipo de trote ou aplicação de situação humilhante ou agressiva, procure a chefia e denuncie. 

Importante também saber que tanto agressores quanto agredidos necessitam de muito diálogo e acompanhamento terapêutico para solucionar seus traumas e conflitos.

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