Relutei bastante para escrever este artigo, pois ir um pouco mais a fundo neste assunto significa admitir que nós, mulheres, somos capazes de atitudes extremamente ingênuas quando estamos apaixonadas ou até mesmo quando queremos nos apaixonar... E faço questão de colocar "nós mulheres" por que incluo-me também neste conjunto de atitudes.
Apesar de nunca ter vivido uma situação como a que passarei a relatar, eu também, em algumas ocasiões em que estive apaixonada ou querendo apaixonar-me por alguém fui capaz de atitudes ingênuas que não tomaria numa situação corriqueira. Então, devo mesmo admitir que nós, mulheres, temos uma sensibilidade que nos torna mais frágeis e, ao invés de nos revoltar ou ignorar esse nosso lado, é bom que comecemos a repensá-lo para que possamos, finalmente, alcançar a felicidade no amor e em todos os nossos ideais...
Bem, depois desse discurso, devo entrar no assunto que levou-me a escrever esse artigo. Perdi a conta de quantas mulheres passaram pelos meus tratamentos, geralmente apresentando quadros de depressão, auto estima a zero e outros sintomas diversos, sempre dizendo-se rejeitadas pelos homens que amam (ou pensam amar). Na maioria são mulheres bonitas ou, ao menos, elegantes, inteligentes, independentes financeiramente, mas que não conseguem "namorar sério". Quando relatam isso, eu sempre pergunto há quanto tempo estão sozinhas e a maioria responde que não está sozinha, tem um relacionamento, mas só "ficam", não têm compromisso... E o pior é que, já que não têm compromisso, acabam saindo com vários homens, intercalando encontros "sem compromisso". E, nesse circulo vicioso acabam cada vez mais rejeitadas e afastadas de seu objetivo que é ter um namorado.
Além disso, há o risco de contrair DST, afinal, o homem sai com várias mulheres, as mulheres que saem com ele também saem com outros para "esquecer a dor do abandono", numa situação dessas, por mais cuidados que se tenha, logo a dor poderá ser de uma DST que ninguém saberá ao certo de onde veio.
Perguntando a fundo e estimulando que falem, elas acabam relatando que "ficam" com determinados homens que adorariam ter como namorados, mas eles não querem compromisso alegando que são ciumentos, possessivos ou neuróticos ou qualquer detalhe da personalidade que justifique um "não envolvimento". Estando apenas num happy hour com determinadas mulheres, eles não se comprometem com nada nem ninguém e, portanto, são soltos, leves, não fazem cenas, não sentem ciúmes, não sofrem nem fazem sofrer. Se namorassem, seriam diferentes, fariam cenas de ciúmes, cobrariam, seriam cobrados e a relação terminaria logo, por isso, preferem sexo sem compromisso...
É ai que questiono que parece haver um tipo de homem que possui em seu cérebro uma tecla SAP, capaz de mudar a linguagem de um relacionamento que é igual seja qual for a abordagem. Ficar ou namorar na verdade envolvem as mesmas atitudes, beijos, carinhos, sexo, até sair para jantar, dançar, cinema, etc. apenas numa freqüência diferente, sem telefonemas no dia seguinte, sem flores em ocasiões especiais, nem datas para comemorar a dois...
Além da economia financeira que, concordo, é grande, visto que não se investe nada na relação, qual é a diferença entre ficar e namorar? É impressionante esta capacidade que alguns homens têm de desligar e/ou condicionar os sentimentos de acordo com a situação, ou seja, ficar não envolve sentimentos profundos, namorar envolve e ainda aciona um lado que eles não querem assumir, afinal, se são ciumentos, possessivos ou o que forem na essência, serão sempre assim. Se vão camuflar o que são, encaixotando seus sentimentos, continuarão sendo do mesmo jeito só que camuflados estejam eles namorando, ficando ou o que quiserem, suas personalidades estão lá da mesma forma, apenas adormecidas.
Melhor seria encontrar uma mulher madura, resolvida que os ajudasse a lidar bem com sua personalidade ao invés de camufla-la simplesmente numa pseudo relação com mulheres que não os incomodam, mas também não os fazem crescer nem conhecer a realização de uma boa relação a dois.
E, neste ponto, questiono as mulheres que aceitam essa desculpa como natural. Se uma mulher não quer compromisso e consegue sair somente pelo sexo e diversão, ótimo, que assuma isso e divirta-se muito. Mas se a maioria quer tanto um namorado que chega a lotar consultórios de Terapia, para quê participar dessa novela que mais parece pastelão?
As pacientes que chegam a mim com essas características, logo se acham e se resolvem por que tenho mesmo a característica de acelerar o processo e chegar logo ao resultado, resolvendo os pontos principais e redirecionado as vidas que me procuram, por que paciente é uma vida que está em nossas mãos. Seja em que área for, dentro da Saúde, um paciente desinformado, mal atendido ou maltratado é um crime inafiançável, é um problema que não se resolveu, uma doença que não se curou, uma vida que não se salvou...
Por isso, penso nas inúmeras pacientes que entopem consultórios de pessoas que não pensam como eu, e passam anos lutando para sair dessa condição de "ficante", enquanto o Terapeuta posiciona-se com seus "hum hum", "hã hã" e "desenvolva melhor esse raciocínio". E, dessa forma, não se resolvem nunca... Quem sabe, quando os seus pretendentes já estiverem tendo netos, provavelmente com outra que não se contenta com tão pouco numa relação, ai essas pacientes enxerguem que perderam tempo em relações erradas, ou talvez, não tenham localizado a tempo essa famosa tecla SAP para aciona-la quando o pretendente estivesse distraído, conseguindo assim, o tão sonhado envolvimento do "namoro sério"...
Este é um assunto que me faz refletir e querer pesquisar por que ainda continuo recebendo e tratando pacientes com essas características. E diante da experiência que tenho no atendimento a esses casos, posso dar, basicamente, duas sugestões para as pessoas que estão vivendo situação desse tipo:
Primeiro: Ninguém é obrigado a falar em casamento nos primeiros encontros, mas, se a intenção é namorar sério, também não dá para ficar saindo com homens que já dizem logo que querem sexo e amizade. Aliás, tenho até uma prosa poética (publicada numa antologia) que fala da ingenuidade dessa proposta, pois amizade é um amor sem sexo, se é para juntar os dois, então o homem está querendo amar e ser amado, mas nem sabe disso...
Porém, tenha certeza de que, se ele, no fundo, até está querendo amar e ser amado, mas está meio perdido nos sentimentos, se propôs a você só sexo e amizade, não é você a escolhida para desabrocha-lo para o amor. E, se você já está numa relação desse tipo, já saiu com ele por mais de um mês e a relação não deslanchou, não se iluda achando que ainda irá se firmar. E, se além disso tudo, você ainda está saindo com outros para "aliviar a dor e passar o tempo até o príncipe acordar" como já ouvi muito em consultório, então o caso está mesmo perdido. Seu "príncipe" jamais irá respeitá-la por que você própria está se desrespeitando. Portanto, valorize-se e procure outro que já esteja acordado.
E sugestão dois, a mais importante, procure um bom Terapeuta. Aliás, este conselho vai também para o homem que está propondo esse tipo de relação, por que está vivendo um pseudo amor e, com isso, envolvendo-se com pessoas fracas que não lhe dão estabilidade nem direcionamento, perdendo grandes chances de encontrar uma relação estável e equilibrada que, no mínimo, o fará crescer. Se a desculpa é uma relação anterior que não deu certo ou seja qual for o motivo, certamente uma boa terapia resolverá. O Terapeuta, por sua vez, deverá resolver a questão entre dez e vinte sessões, ou seja, em média entre dois e quatro meses, se passar muito disso, troque de Terapeuta. Aliás, antes de iniciar o tratamento, peça uma previsão de sessões para resolver seu caso. Se não tiver grandes traumas em nenhuma fase da vida, com certeza, algo entre dez e vinte sessões é mais do que suficiente.
Este artigo é parte integrante do livro Distúrbios familiares - autoria Lou de Olivier - Editora WAK. Saiba mais sobre este e outros assuntos de amor e família clique aqui
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