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Ser doente, estar doente ou portar a doença?
Matéria publicada em diversos sites, jornais e revistas no Brasil e Europa. Permitida a reprodução, desde que citada a sua autoria e não haja nenhuma alteração no texto.
Um dos princípios básicos das várias modalidades de Terapia e até da própria vida é a condição de constante mudança a que o ser humano está sujeito, em vários aspectos: Uma pessoa, por mais bela que seja, não pode centralizar sua vida em sua beleza, pois o tempo pode envelhece-la, um acidente pode desfigura-la. Enfim, inúmeros fatos podem ocorrer e torna-la "feia". Portanto a colocação correta deveria ser: "Esta pessoa está bela" e não como se diz normalmente: "Esta pessoa é bela".Da mesma forma, quem está solteiro pode casar-se, quem está casado pode divorciar-se ou enviuvar...
Sendo assim, a grande verdade é que nenhuma condição humana é irreversível a não ser a morte. E, ainda assim, para quem acredita em reencarnação, esta pode reverter-se (?) Por isso fica meio difícil aceitar a forma como a maioria das pessoas classifica os pacientes em relação aos distúrbios que atingem os seres humanos. Diz-se: "Fulano é diabético", "Sicrano é soropositivo", "Beltrano é disléxico ou epiléptico ou qualquer coisa assim". Com estas afirmações instala-se, além da doença, o "sentimento da doença", ou seja, o indivíduo não mais está doente e sim, psicologicamente, passa a ser a própria doença.
Quando alguém se classifica como: "Eu sou... algum distúrbio qualquer", na verdade, centraliza toda a sua potência na doença. Como se não existisse antes de adoecer e/ou nada do que faça tenha real importância, diante de suas limitações impostas pela doença que, no fundo, é ele mesmo. Ele e a doença são "uma só pessoa" e a partir daí, o paciente passa a viver em função do que pode ou não fazer de acordo com os "limites" que a doença lhe impõe.
Isto não é visível e a maioria das pessoas não percebe, mas influencia bastante no processo de recuperação. Quando alguém se classifica como: "Eu estou com o distúrbio X", já melhora sua aceitação da doença, pois admite que o distúrbio existe, o acompanha, "está com ele", mas não o domina. Sua vida continua acontecendo normalmente, apesar de um ou vários impedimentos que a doença lhe inflija. Esta pessoa tem mais chances de recuperar-se, por acreditar ser tão forte quanto a doença que o acompanha. Mesmo assim, ainda não é o ideal.
Penso que a melhor forma de um paciente classificar-se diante de um distúrbio seja: "Eu sou portador do distúrbio X". Psicologicamente o portador sente-se forte. O fato de portar o distúrbio e ter o "poder" de conduzi-lo como e por onde quiser faz com que o paciente sinta-se capaz de dominar totalmente a doença. Por mais debilitado fisicamente e por mais poderoso que seja o distúrbio ou vírus ou o que for, este parece não ter forças contra o paciente que se julga portador, portanto "possuidor" da mesma, no sentido real de posse. Com poder para dominar o distúrbio como e por quanto tempo quiser. Isso reflete positivamente na recuperação e até em casos considerados incuráveis, pode prolongar o período de vida por vários anos além do previsto.
Desta forma é possível encontrar pessoas já bastante idosas e/ou debilitadas por inúmeras doenças e que, ainda assim, parecem achar forças para sair, desenvolver atividades diversas e viver muito, mesmo convivendo com limitações. Por outro lado é possível encontrar pacientes jovens, mas que, por falta de objetivos, perspectiva de vida e/ou motivação, acabam deixando-se sucumbir por distúrbios/doenças simples que poderiam ser facilmente controlados com perseverança e vontade de viver.
Diante de tudo isso, fica uma pergunta: Até que ponto uma doença é realmente incurável e/ou um vírus é realmente mortal? Será que nós, profissionais de saúde, não podemos mudar esse conceito com menos alarde em "descobertas científicas" e mais investimento na auto estima de nossos pacientes?