Vícios transferidos – quando o que importa é se salvar
(incluindo uma dica importantíssima para as mulheres) - By Lou de Olivier

Ao longo da minha carreira como Terapeuta e da minha vida como uma transeunte deste maravilhoso planeta, tenho sido contemplada com experiências riquíssimas que me proporcionam oportunidades de grandes reflexões e, em consequência, crescimento em todos os sentidos. E, como sou muito altruísta, sempre divido meus aprendizados com meus leitores.

Hoje trago um grande aprendizado que obtive recentemente, observando dois casos de supostos ex-viciados. Digo supostos porque, do ponto de vista terapêutico, eles agiram apenas em transferências de vícios e continuam tão ou mais viciados, ainda que imaginem-se curados.

Para ilustrar os casos, farei um resumo sem relatar idade, sexo, posição social, menos ainda, nome ou qualquer identificação. Apenas o caso em si.

Caso 1

Pessoa que, por muitos anos foi alcoólatra, já tendo tentado algumas vezes o suicídio. Depois de passar por vários tratamentos psiquiátricos e de algumas internações para desintoxicação, tendo voltado ao vicio, ingressou em uma igreja, frequentando assiduamente os cultos e envolvendo-se cada vez mais com a rotina da igreja. Após alguns meses, diz-se totalmente curada, já se deu alta por conta própria do tratamento medicamentoso, entregou-se totalmente à pregação e segue renegando tudo o que viveu anteriormente, seguindo uma nova vida voltada somente ao que é divino, longe de qualquer pecado e imune ao vício do álcool.

Caso 2

Pessoa que passou aproximadamente 70% de sua vida drogando-se, ou seja, iniciou-se no vício das drogas por volta dos 14 anos e passou 30 anos utilizando várias substancias tóxicas, especialmente cocaína, maconha e, nos últimos 20 anos, crack, tendo períodos de abstinência entre dois e três anos, sendo que nessas ocasiões, estava internada em comunidades ou em manutenção em grupos de apoio. E um detalhe importante: sempre envolvida amorosamente com alguém. Bastava a relação esfriar para a pessoa ter uma recaída nas drogas. Recentemente, após passar um período em uma comunidade terapêutica, retomou uma relação amorosa, mas esta já estava desgastada até mesmo por suas atitudes de pessoa viciada. Ao terminar esta relação, imediatamente, buscou outra pessoa, com padrões parecidos à antiga parceira e transferiu todos os sentimentos de vários anos da antiga relação para esta nova relação, ou seja, a pessoa que ela acabou de conhecer passou a ser seu grande amor e motivo para viver.

O que esses dois casos têm em comum?

Simples, transferência de vícios. A primeira pessoa transferiu seu vício do álcool para o divino e a segunda transferiu do vício para o amor, do amor para o vício e assim por diante a vida toda.

Agora quero frisar bem que não sou contra o viciado ter uma relação de amor ou procurar uma religião, ao contrário, eu incentivo essas atitudes. É muito positivo ter uma relação estável e apoiadora com uma pessoa que não tenha o mesmo vício e que sirva como porto seguro, da mesma forma que é extremamente aconselhável que se procure uma religião e busque nela a força e o apoio para vencer suas fraquezas.

O que não se pode fazer é utilizar um amor ou uma religião como tábua de salvação, como algo que vicia tanto quanto uma droga. Porque o propósito da religião é promover uma religação do ser humano com o divino e, com isso, proporcionar paz e equilíbrio espiritual e não servir como alternativa para não voltar ao antigo vício. E em relação ao amor numa relação a dois, este deve ser um complemento para a vida e não o motivo principal de se viver.

Outro fator que se prega tanto em nível religioso quanto em nível de tratamento (*especialmente em comunidades terapêuticas) é o direito de abandonar todo o passado de erros e seguir uma nova vida como se tudo o que a pessoa, suposta ex-viciada, fez anteriormente não tivesse tido nenhuma consequência para ela e para quem com ela conviveu. Isso não só enfraquece o que poderia ser uma cura como vende a ideia de que é possível aprontar tudo e mais um pouco e depois se internar ou se converter a uma religião – e todos viverão felizes para sempre como na novela das seis.

Porém, na novela da vida, o patrocinador não é tão complacente e acreditar neste rompimento com o passado é algo até infantil e descabido. É preciso analisar tudo o que foi feito, os pontos que falharam, resolver as pendências, traumas, etc. e parar com essa ideia de que muitas clinicas e comunidades passam aos internos que podem abandonar, aos poucos, a antiga vida que não funcionava.

Ora, o que não funcionava era o indivíduo diante da vida antiga e não a própria vida que não funcionava. A vida sempre funciona bem, algumas pessoas é que a entendem de forma tão distorcida e irreal que acabam sendo disfuncionais em situações que para qualquer outra pessoa é normal. “Culpar” a vida antiga e “tratar” uma pessoa de forma a abandonar a vida antiga só vai fazê-la dependente do suposto tratamento e, a qualquer deslize, voltará ao vício.
Da mesma forma, entregar-se a uma religião, esquecendo-se de tudo o que é do mundo e ligando-se somente ao divino, é louvável e deve sim ser feito se a pessoa sentir que é esse o seu caminho, que quer se aperfeiçoar cada vez mais em busca do poder superior de Deus mas nunca usar isso como fuga de um vício ou, pior, transferência de vícios.

Resumindo, entregue-se, sim, ao amor ou a uma religião mas que essa entrega seja em busca de realização plena e complemento de seus conceitos e não como fuga do passado ou de vícios ou de qualquer coisa tão horrível que foi feita e precisa ser escondida debaixo do tapete.

Que este artigo sirva de alerta às mulheres que, desavisadas, imaginam que estão sendo muito amadas por homens que acabaram de conhecer. Geralmente, eles não estão nem enxergando o que estão fazendo, apenas procurando uma tábua de salvação e suas loucas declarações de amor podem transformar-se em grandes lamentos se a “musa” escolhida não tiver sensibilidade para detectar esde desequilíbrio. Lembram daquele antigo comercial: “Se um homem de repente te oferecer flores...” é possível uma paixão à primeira vista, mas o mais provável é que a resposta seja... “Cuidado, isso é fuga”... E seja lá do que ele esteja fugindo, é melhor que você não sirva de esconderijo...

Meu livro "Distúrbios familiares" mostra de forma profundada os diversos vicios e como tratá-los.

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